Varzedo, 2016: política,
coincidências e "mudanças"
Por Jorge Amorim*
Antes de discutir com você
sobre a campanha política deste ano, que terminou na última quinta-feira
(29-09), gostaria de relembrar acontecimentos na política de Varzedo ocorridos
em um passado não tão distante...
Para isso, voltarei à época de Varzedo quando era Vargem
Grande até chegar aos dias atuais. Vamos lá!
Escrevi no meu livro Entre
a Serra e a Vargem (2007), com base em pesquisas, que em novembro de 1896 a
disputa entre os candidatos a intendência – ou prefeitura – de Santo Antônio de
Jesus, Francisco Félix de Barros e Almeida e Bernardo José Jambeiro, ficou
acirrada no distrito de Vargem Grande.
Em 1946, cinquenta anos após, já com o nome trocado para
Varzedo, o distrito foi balançado por um conflito iniciado pela fofoca e
terminado com a ida até lá de um sargento delegado chamado Antônio Alves de
Anastácio.
Aquele conflito, que mereceu até um pequeno livro
intitulado Tempestade em copo dagua...
[escrito assim] (1946),
envolveu os grupos locais adversários ligados a UDN (União Democrática Nacional)
e PSD (Partido Social Democrático).
Mais cinquenta anos depois, em 1996, Varzedo viu a
disputa para a eleição do seu terceiro prefeito – que acabou sendo eleita a primeira
prefeita: Erotildes Silva Souza (1997-2000) – entre dona Tide e Manoel de
Avelino (PFL) versus doutor Ismar e
Elzo Nery (PTB).
Para
ser mais exato, seguindo a atmosfera política daquele período o qual pude ser
testemunha, foi o confronto entre nonoístas
(seguidores e herdeiros políticos de Nonô) e antinonoístas, movimentos fortes naqueles anos da década de 90 do
século XX.
O
resultado que garantiu a Tide a vitória foi de 2.669 votos dados a ela contra
os 1.920 encaminhados a doutor Ismar, ficando 79 votos para Edmilson, que
desistiu de seguir, numa época que Varzedo possuía 4.668 pessoas aptas para
exercer o sufrágio (ver site do TRE: http://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-anteriores/eleicoes-1996/informacoes-quadro-partido-cargo).
Mas
qual relação esses fatos políticos têm com a política de 2016?
A
primeira, claro, é que em todos eles estavam sempre dois grupos oponentes
fortes, mesmo que em 1996 tivesse o registro eleitoral de um terceiro candidato
a prefeito, Edmilson (PSDB), o qual no fim da campanha acabou aderindo a
candidata Tide.
Agora,
em 2016, duas candidaturas mais uma vez marcaram – e como marcaram! – a
continuidade da disputa entre dois agrupamentos rivais: Valtinho e Joaquim (PP,
PSB, PT, PMDB, PR, PROS e PPL) versus
Bahia e Gilmar (PSC, PSD, PTB, DEM, PPS, PC do B e PDT), lembrando muito a política
de vinte anos atrás.
Em
1996, dona Tide e Manoel de Avelino eram aspirantes a prefeita e vice-prefeito;
doutor Ismar e Elzo Nery concorriam aos mesmo cargos. Até aqui, tudo normal.
Enquanto
dona Tide era da sede de Varzedo e Manoel de Avelino da comunidade do Barro,
doutor Ismar era oriundo de outro município (São Miguel das Matas) e Elzo Nery
da comunidade de Nossa Senhora do Carmo, de Varzedo.
Em
2016, Valtinho e Joaquim foram candidatos a prefeito e vice-prefeito; Bahia e
Gilmar concorreram aos mesmos cargos.
Enquanto
Valtinho é da sede de Varzedo – embora natural de Salvador – e Joaquim da
comunidade do Albino, Bahia é originário de outro município e Gilmar da
comunidade de Nossa Senhora do Carmo (apesar de hoje morar na sede).
Quanto
ao resultado da atual corrida eleitoral à prefeitura de Varzedo, que deu a
Bahia e Gilmar a vitória com 3.541 votos contra os 2.932 de Valtinho e Joaquim,
vinte anos depois da eleição em que uma nativa (Tide) venceu uma pessoa vinda
de fora (doutor Ismar) vimos ocorrer o contrário agora em 2016.
As
análises que ouso fazer do êxito eleitoral de Bahia sobre Valtinho em Varzedo
seriam as seguintes:
·
Utilização de
diferentes estratégias para angariar eleitores;
·
A coligação
que apoiou Bahia e Gilmar obteve a vitória diante de um antipetismo crescente
no país e na Bahia;
·
Desgaste do
laborioso governo de Radaman (PT) e ao seu corpo administrativo após oito anos
(2009-2016);
·
Vontade de
diminuição da violência local, tendo por finalidade a sensação de segurança,
com um prefeito que tem a função estatutária de agente policial civil da Bahia;
·
Vinganças
pessoais de muitos anos contra Valtinho, além de Radaman e Manoel de Avelino que
o apoiaram.
Com
exceção daqueles quatro primeiros pontos, o último foi passional para a maioria
que digitava o “20 de Bahia” desejando ver Radaman fora, Valtinho sem chances
de assumir o executivo, seu Manoel de Avelino no canto dele e os ocupantes de
cargos comissionados voltando às suas funções no serviço público ou mesmo
saindo para deixar o lugar vago para os “vencedores”.
Vendo
como vi muitos rostos suados comemorando a eleição de Bahia e Gilmar, creio que
posso atuar como um “pressagiador amador” e dizer hoje, 03 de outubro de 2016,
que muitos daqueles rostos extasiados de alegria irão torná-los sua “Geni”,
personagem cantada da música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, mais para
frente. Quem viver verá.
O importante é que os eleitos em 02 de outubro
coloquem em prática, a partir de primeiro de janeiro de 2017, a maioria do que
está em seus programas de governo para atenuar em Varzedo a violência, manter
as estradas vicinais, criar um sistema de comunicação que integre os polos
distritais, valorizar a saúde, a educação, a história e as culturas do lugar.
Embora
não tenha apoiado, desejo parabéns pela vitória e boa gestão a partir do ano
que vem ao prefeito Bahia, vice-prefeito Gilmar e aos vereadores – por ordem de
votação – Jô de Gilmar, Fabinho, Luizinho de Manoel de Avelino, Nau de Belo,
Neto de Tonho de Eurides, Nengo, Pinto de Playboy, Antônio de Darino e Zelino.
Afinal,
eles não serão os representantes dos seus eleitores somente, mas de todos os
varzedenses, favoráveis ou desfavoráveis às suas gestões.
Ah,
e uma coincidência final. Depois de vinte anos da saída da última vereadora,
que foi dona Maria Perpétua, a câmara municipal voltará a ter uma presença
feminina, Jô de Gilmar, que neste escrutínio ficou em primeiro lugar com 475 votos.
De agora em diante, ela será vereadora Jucélia.
Até nosso próximo blog.
* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa
(Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo
emancipatório de Varzedo (disponível na internet),
e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do
livro Entre a Serra e a Vargem (2007)
e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença. E-mail
para contato: amorimdoporto@hotmail.com



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