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domingo, 9 de outubro de 2016

Coluna da semana: "mudança" e "conservação" na política varzedense pós-eleição 2016




Maioria em Varzedo “quis o Liso” e a “mudança conservadora”

Por Jorge Amorim*



 Agora que os palanques foram desarmados e as comemorações dos vencedores vão diminuindo, Varzedo volta lentamente à sua mesmice original, envolta em dias de mormaço e chuva característicos da primavera.
Com o peito cheio de si, comum dos vitoriosos apaixonados, alguns poucos dos 3.541 eleitores que seguraram bandeiras e adesivos de Bahia e Gilmar discorrem “comentários” e “compartilham”, através do Facebook, frases como:
“Vontade de mudança!”
“Valeu Família 20”
Além destas, é estranho compreender que no momento do êxtase vitorioso pessoas falem termos pejorativos sem querer, gritem frases depreciativas e até saem criando absurdos, como o que na casa do adversário – no caso, Valtinho – estavam hospedados dois feiticeiros.
Ah, elementar: é a paixão momentânea!
Sem terem certeza de nada, mas liderados pela mirabolante imaginação alimentada pelo contexto varzedense, tanto pouquíssimos votantes de Valtinho e Joaquim quanto muitíssimos de Bahia e Gilmar criaram uma campanha eleitoral bastante agressiva, com xingamentos, depredações de veículos, chacotas, ferimentos de pessoas, cooptações, mentiras e perseguições.
A passagem da campanha eleitoral não pode empurrar para debaixo do tapete esses e outros fatos praticados por gente que ainda permanece na era do australopithecus. Não posso afirmar se muitas daquelas e outras atitudes partiram de cada um ou se foram estimuladas por alguém.
O fato é que a pressão da “Família 20” – até quanto tempo permanecerá unida? – acabou dando certo, pois ela queria mudança de governo: seria para o município, para algumas pessoas ou para um grupo seleto? O tempo nos dirá.
Agora, que “mudança” com cara “conservadora” foi a que aconteceu no dia 02 de outubro em Varzedo?
Quero dizer que a eleição de Bahia e Gilmar pode ter tido um “traço de mudança”, o que praticamente não aconteceu na câmara municipal, reelegendo-se sete dos nove vereadores. Vejamos os números.
2.089 votos fizeram a bancada que, a princípio, será oposição ao governo de Bahia a partir de primeiro de janeiro de 2017, enquanto 1.523 criaram a bancada, teoricamente, situacionista, ou seja, daqueles primeiros números ficaram cinco e destes últimos quatro.
A “nova cara” da casa legislativa será assim: Jucélia (PSD), Nengo (PTB), Pinto de Playboy (PSD) e Zelino (PDT) = situacionistas; Fabinho (PT), Luizinho de Manoel de Avelino (PSB), Nau de Belo (PROS), Neto de Antônio de Eurides (PT) e Antônio de Darino (PP) = oposicionistas.
Entraram, pois, Jucélia “no lugar” de Gilmar, seu esposo e a partir de janeiro do ano que vem vice-prefeito, e Fabinho, que supriu a vaga deixada por Joaquim, o qual ficará de fora de um cargo público nos próximos quatro anos, após dezenove anos na vereança (1997-2016).
A questão é saber mesmo como será a “nova Varzedo” de 2017 em diante, porque uma coisa é suceder ao atual prefeito Radaman por Bahia; outra coisa é saber como o novo prefeito atuará diante de uma câmara opositora.
Bahia fará negociações com as poucas vagas de emprego da prefeitura? Irá pessoalmente até a câmara solicitar encarecidamente apoio para aprovar os seus projetos? Ou o futuro chefe do executivo municipal terá uma carta na manga?
Tem mais. O tempo será um inimigo para Bahia.
Basta lembrar que, de acordo com a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 113-A, aprovada em abril passado, ele terá somente um mandato, sem chances de reeleição, para governar “Por uma nova Varzedo”.
Estaremos todos na expectativa, torcendo para que a crise da economia brasileira, a da política e os prováveis – não sabemos se haverão – problemas do governo Radaman não se tornem tergiversações para o novo governo ocultar a incompetência político-administrativa que, espero – e isto não é ironia –, não venha a ter.
De qualquer forma, Bahia e Gilmar deixaram de serem os candidatos para serem eleitos nossos prefeito e vice-prefeito, concordemos ou não com o que eles pregaram durante a campanha eleitoral.
 Isto faz parte do que chamamos de democracia, merecendo o respeito de todos, mesmo que eu veja como deselegante a atitude do prefeito eleito de Varzedo usar um motosserra para, simbolicamente, esquartejar a coligação perdedora.
Digo isto não por razão de que a coligação que eu apoiei, Valtinho e Joaquim, tenha ficado em segundo lugar na disputa pela prefeitura de Varzedo em 2016, contudo estamos numa época em que os representantes públicos precisam ser modelos de austeridade, equilíbrio e veracidade.
(Um adendo aos que torceram o nariz pelo que escrevi: se a mesma atitude, ou outra qualquer, tivesse sido praticada por Valtinho eu faria a mesma crítica, ainda mais pela proximidade que tenho para com ele, não obstante saber que o mesmo não faria).
Mais. Não é preciso ser um Nostradamus da política para prever que a festança de hoje é a véspera da ressaca de amanhã. Na política, a inicial paixão que mobiliza os eleitores é trocada, tempos depois, pela decepção irracional.
 

  Caso os nossos futuros prefeito e vice-prefeito de Varzedo, que riem verdejantes na imagem acima, leiam este texto, dou-lhes um recado do poeta parnasiano Augusto dos Anjos (1884-1914): “a mão que afaga é a mesma que apedreja”. 
Conselho de quem conhece uma parte negativa da essência humana.
Até nosso próximo blog.

* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo (disponível na internet), e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do livro Entre a Serra e a Vargem (2007) e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença. E-mail para contato: amorimdoporto@hotmail.com
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