Maioria
em Varzedo “quis o Liso” e a “mudança conservadora”
Por Jorge Amorim*
Agora
que os palanques foram desarmados e as comemorações dos vencedores vão
diminuindo, Varzedo volta lentamente à sua mesmice original, envolta em dias de
mormaço e chuva característicos da primavera.
Com
o peito cheio de si, comum dos vitoriosos apaixonados, alguns poucos dos 3.541
eleitores que seguraram bandeiras e adesivos de Bahia e Gilmar discorrem
“comentários” e “compartilham”, através do Facebook, frases como:
“Vontade de mudança!”
“Valeu Família 20”
Além
destas, é estranho compreender que no momento do êxtase vitorioso pessoas falem
termos pejorativos sem querer, gritem frases depreciativas e até saem criando
absurdos, como o que na casa do adversário – no caso, Valtinho – estavam
hospedados dois feiticeiros.
Ah,
elementar: é a paixão momentânea!
Sem
terem certeza de nada, mas liderados pela mirabolante imaginação alimentada
pelo contexto varzedense, tanto pouquíssimos votantes de Valtinho e Joaquim
quanto muitíssimos de Bahia e Gilmar criaram uma campanha eleitoral bastante
agressiva, com xingamentos, depredações de veículos, chacotas, ferimentos de
pessoas, cooptações, mentiras e perseguições.
A
passagem da campanha eleitoral não pode empurrar para debaixo do tapete esses e
outros fatos praticados por gente que ainda permanece na era do
australopithecus. Não posso afirmar se muitas daquelas e outras atitudes
partiram de cada um ou se foram estimuladas por alguém.
O
fato é que a pressão da “Família 20” – até quanto tempo permanecerá unida? –
acabou dando certo, pois ela queria mudança de governo: seria para o município,
para algumas pessoas ou para um grupo seleto? O tempo nos dirá.
Agora,
que “mudança” com cara “conservadora” foi a que aconteceu no dia 02 de outubro
em Varzedo?
Quero
dizer que a eleição de Bahia e Gilmar pode ter tido um “traço de mudança”, o
que praticamente não aconteceu na câmara municipal, reelegendo-se sete dos nove
vereadores. Vejamos os números.
2.089
votos fizeram a bancada que, a princípio, será oposição ao governo de Bahia a
partir de primeiro de janeiro de 2017, enquanto 1.523 criaram a bancada, teoricamente,
situacionista, ou seja, daqueles primeiros números ficaram cinco e destes
últimos quatro.
A
“nova cara” da casa legislativa será assim: Jucélia (PSD), Nengo (PTB), Pinto
de Playboy (PSD) e Zelino (PDT) = situacionistas;
Fabinho (PT), Luizinho de Manoel de Avelino (PSB), Nau de Belo (PROS), Neto de
Antônio de Eurides (PT) e Antônio de Darino (PP) = oposicionistas.
Entraram,
pois, Jucélia “no lugar” de Gilmar, seu esposo e a partir de janeiro do ano que
vem vice-prefeito, e Fabinho, que supriu a vaga deixada por Joaquim, o qual
ficará de fora de um cargo público nos próximos quatro anos, após dezenove anos
na vereança (1997-2016).
A
questão é saber mesmo como será a “nova Varzedo” de 2017 em diante, porque uma
coisa é suceder ao atual prefeito Radaman por Bahia; outra coisa é saber como o
novo prefeito atuará diante de uma câmara opositora.
Bahia
fará negociações com as poucas vagas de emprego da prefeitura? Irá pessoalmente
até a câmara solicitar encarecidamente apoio para aprovar os seus projetos? Ou
o futuro chefe do executivo municipal terá uma carta na manga?
Tem
mais. O tempo será um inimigo para Bahia.
Basta
lembrar que, de acordo com a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 113-A,
aprovada em abril passado, ele terá somente um mandato, sem chances de
reeleição, para governar “Por uma nova Varzedo”.
Estaremos
todos na expectativa, torcendo para que a crise da economia brasileira, a da
política e os prováveis – não sabemos se haverão – problemas do governo Radaman
não se tornem tergiversações para o novo governo ocultar a incompetência político-administrativa
que, espero – e isto não é ironia –, não venha a ter.
De
qualquer forma, Bahia e Gilmar deixaram de serem os candidatos para serem
eleitos nossos prefeito e vice-prefeito, concordemos ou não com o que eles
pregaram durante a campanha eleitoral.
Isto faz parte do que chamamos de democracia,
merecendo o respeito de todos, mesmo que eu veja como deselegante a atitude do
prefeito eleito de Varzedo usar um motosserra para, simbolicamente, esquartejar
a coligação perdedora.
Digo
isto não por razão de que a coligação que eu apoiei, Valtinho e Joaquim, tenha
ficado em segundo lugar na disputa pela prefeitura de Varzedo em 2016, contudo
estamos numa época em que os representantes públicos precisam ser modelos de
austeridade, equilíbrio e veracidade.
(Um adendo aos que torceram o nariz pelo que escrevi: se
a mesma atitude, ou outra qualquer, tivesse sido praticada por Valtinho eu faria
a mesma crítica, ainda mais pela proximidade que tenho para com ele, não
obstante saber que o mesmo não faria).
Mais.
Não é preciso ser um Nostradamus da política para prever que a festança de hoje
é a véspera da ressaca de amanhã. Na política, a inicial paixão que mobiliza os
eleitores é trocada, tempos depois, pela decepção irracional.
Caso
os nossos futuros prefeito e vice-prefeito de Varzedo, que riem verdejantes na imagem acima, leiam este texto,
dou-lhes um recado do poeta parnasiano Augusto dos Anjos (1884-1914): “a mão
que afaga é a mesma que apedreja”.
Conselho de quem conhece uma parte negativa da essência humana.
Até
nosso próximo blog.
* Mestre em História Contemporânea pela Universidade
de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo
emancipatório de Varzedo (disponível na internet),
e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do
livro Entre a Serra e a Vargem (2007)
e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença. E-mail
para contato: amorimdoporto@hotmail.com




0 comentários:
Postar um comentário