As
(prováveis) “lógicas” de quem não votou em Valtinho e Joaquim
Daqui a algumas décadas,
algum estudioso que pretenda analisar a eleição municipal de 2016 em Varzedo
irá partir da seguinte pergunta:
O que fez a maioria dos
eleitores deixar de votar nos candidatos a prefeito e vice-prefeito Valtinho e
Joaquim, apoiados pelo então prefeito Radaman, para votar nos candidatos Bahia
e Gilmar?
O estudioso, ou
estudiosa, irá comprovar que nas duas gestões seguidas do prefeito petista
(2009-2012/ 2013-2016) o município conseguiu, dentre outras coisas:
Ø Asfaltamento urbano;
Ø Sede para a creche
através do programa Proinfância;
Ø Água canalizada em
localidades da zona rural;
Ø Encascalhamento de
estradas vicinais;
Ø Distribuição de água na
sede vinda da barragem Luis Eduardo Magalhães, de Santo Antônio de Jesus;
Ø Projetos sociais;
Ø SAMU;
Ø Veículos para as
polícias militar e civil;
Ø Caminhões-caçamba pelo
PAC etc.
Ok, tudo certo.
Então, mesmo diante da
possibilidade de que algumas obras como essas, e outras mais, poderiam
continuar a ser obtidas por Valtinho, qual a lógica de o candidato adversário
ter sido eleito, o qual é filiado – ao menos hoje – ao Partido Social Cristão,
PSC, que não faz parte da base aliada do atual governo do Estado e tem somente
um deputado estadual?
Posso elencar não uma,
mas algumas “lógicas” – assim mesmo, entre aspas, para deixar ambiguidades –
seguidas por diferentes esferas dos 3.541 eleitores. Destacaria nove “lógicas”.
A primeira: a
oposição a Valtinho. Quando foi prefeito de Varzedo, Valtinho (1993-1996)
realizou obras com recursos próprios, porém acabou desagradando algumas pessoas
que, ainda hoje, conservam rancores por algo que não conseguiram do governo
dele.
A segunda: a
oposição a Radaman pelos eleitores de Déu Araújo. Quando tentou a reeleição
para prefeito em 2008 e não teve êxito, Déu (2005-2008) deixou órfã uma parcela
eleitoral que precisava se direcionar por um representante, independente de
quem fosse.
A terceira: acabar
com a dita “panelinha”. Teve muita gente, segundo ouvi, disposta a votar em
Bahia e Gilmar com o fim de ambos tirarem o “povo de Radaman” para ele perder a
mamata da prefeitura. Seria tirar um “povo” para entrar “outro”, no fim das
contas.
“É coisa, viu!”
A quarta: os que
não ocuparam cargos comissionados. Alguns concursados e não concursados,
desejosos por um cargo de confiança, viram esta promessa não ser concretizada
pelo governo Radaman Barreto, e aí então focaram na coligação “Por uma nova
Varzedo”.
A quinta:
descontentamento da classe média varzedense. Alguns comerciantes, servidores
públicos estaduais e profissionais autônomos seguiram a ideia de arriscar numa
mudança no governo municipal, a qual não estava representada, na visão deles,
em Valtinho.
A sexta: crença no
sobrenatural. Parte importante do eleitorado de Bahia e Gilmar encarou a
disputa contra Valtinho e Joaquim como uma batalha do “bem” contra o “mal”,
forma maniqueísta que definiu aqueles primeiros como o “hebreu Davi”, enquanto
os segundos seriam o “filisteu Golias”.
“Vixe! Estão se
inspirando muito em novela da rede Record!”
A sétima: crença no
que queriam acreditar. Muitos varzedenses, que creditaram seus votos à
coligação “Por uma nova Varzedo”, nutriram suas expectativas no que sua
imaginação criou, mesmo que fosse a coisa mais fictícia possível e que não
partisse dos próprios candidatos.
“Que viagem!”
A oitava: acabar
com o PT. Muitos eleitores, que talvez nem tenham proximidade com Bahia e
Gilmar, viram nessa eleição a chance de acompanhar a onda antipetista que corre
o Brasil, digitando o “20” como se seguisse a frase: “Fora PT!”.
A nona: a
expectativa em um prefeito policial civil. Devido ao aumento da violência em
Varzedo (assaltos, tráfico de drogas, assassinatos, poluição sonora de
motocicletas sem descarga etc.) esperançosos varzedenses acham que a eleição de
um policial civil para prefeito levará o município a uma “policialização no
executivo” – um ‘xerife’ (do inglês sheriff)? –,
podendo diminuir aqueles problemas.
Então, você que digitou
seu voto à chapa majoritária da coligação “Por uma nova Varzedo” se encaixa em
qual destas “lógicas”? Melhor do que responder aos outros é responder para si
próprio.
Pode ser que um ou outro
eleitor tenha se orientado por uma “lógica” que não se encaixa em nenhuma das
acima citadas (Pode citar então nos “Comentários”). Agora, será que se pode
dizer que muitos seguiram uma “coerência racional de ideias”, ou seja, uma lógica
para votar?
Não estou aqui para
julgar nem rechaçar quaisquer formas de pensamento, mas para levar à reflexão.
O interessante é que cada pessoa que resolveu pleitear a favor da “Família 20”
tenha sido orientado por sua razão, pois se a paixão falou mais alto estará
longe de uma lógica sem aspas...
Ainda mais agora que o
sangue do povo se aquietou.
Até nosso próximo blog.
P.S.: alguém que leu
pode perguntar: por qual razão o colunista Jorge Amorim não escreve um texto
sobre as lógicas de quem não votou em Bahia e Gilmar? Respondo: vamos dar tempo
ao tempo...
*
Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009),
cuja dissertação defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo
(disponível na internet), e
professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do
livro Entre a Serra e a
Vargem (2007) e escreve
mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral,
de Valença. E-mail para contato:
amorimdoporto@hotmail.com




Bom texto, falou da realidade vivida por nosso município
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