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sábado, 15 de outubro de 2016

COLUNA DA SEMANA: Quais teriam sido as "lógicas" de quem, em Varzedo, não digitou o "11" de Valtinho e Joaquim?



As (prováveis) “lógicas” de quem não votou em Valtinho e Joaquim

Por Jorge Amorim*

Daqui a algumas décadas, algum estudioso que pretenda analisar a eleição municipal de 2016 em Varzedo irá partir da seguinte pergunta:
O que fez a maioria dos eleitores deixar de votar nos candidatos a prefeito e vice-prefeito Valtinho e Joaquim, apoiados pelo então prefeito Radaman, para votar nos candidatos Bahia e Gilmar?
O estudioso, ou estudiosa, irá comprovar que nas duas gestões seguidas do prefeito petista (2009-2012/ 2013-2016) o município conseguiu, dentre outras coisas:
Ø  Asfaltamento urbano;
Ø  Sede para a creche através do programa Proinfância;
Ø  Água canalizada em localidades da zona rural;
Ø  Encascalhamento de estradas vicinais;
Ø  Distribuição de água na sede vinda da barragem Luis Eduardo Magalhães, de Santo Antônio de Jesus;
Ø  Projetos sociais;
Ø  SAMU;
Ø  Veículos para as polícias militar e civil;
Ø  Caminhões-caçamba pelo PAC etc.
Ok, tudo certo.
Então, mesmo diante da possibilidade de que algumas obras como essas, e outras mais, poderiam continuar a ser obtidas por Valtinho, qual a lógica de o candidato adversário ter sido eleito, o qual é filiado – ao menos hoje – ao Partido Social Cristão, PSC, que não faz parte da base aliada do atual governo do Estado e tem somente um deputado estadual?
Posso elencar não uma, mas algumas “lógicas” – assim mesmo, entre aspas, para deixar ambiguidades – seguidas por diferentes esferas dos 3.541 eleitores. Destacaria nove “lógicas”.
A primeira: a oposição a Valtinho. Quando foi prefeito de Varzedo, Valtinho (1993-1996) realizou obras com recursos próprios, porém acabou desagradando algumas pessoas que, ainda hoje, conservam rancores por algo que não conseguiram do governo dele.
A segunda: a oposição a Radaman pelos eleitores de Déu Araújo. Quando tentou a reeleição para prefeito em 2008 e não teve êxito, Déu (2005-2008) deixou órfã uma parcela eleitoral que precisava se direcionar por um representante, independente de quem fosse.
A terceira: acabar com a dita “panelinha”. Teve muita gente, segundo ouvi, disposta a votar em Bahia e Gilmar com o fim de ambos tirarem o “povo de Radaman” para ele perder a mamata da prefeitura. Seria tirar um “povo” para entrar “outro”, no fim das contas.
“É coisa, viu!”
A quarta: os que não ocuparam cargos comissionados. Alguns concursados e não concursados, desejosos por um cargo de confiança, viram esta promessa não ser concretizada pelo governo Radaman Barreto, e aí então focaram na coligação “Por uma nova Varzedo”.
 A quinta: descontentamento da classe média varzedense. Alguns comerciantes, servidores públicos estaduais e profissionais autônomos seguiram a ideia de arriscar numa mudança no governo municipal, a qual não estava representada, na visão deles, em Valtinho.
A sexta: crença no sobrenatural. Parte importante do eleitorado de Bahia e Gilmar encarou a disputa contra Valtinho e Joaquim como uma batalha do “bem” contra o “mal”, forma maniqueísta que definiu aqueles primeiros como o “hebreu Davi”, enquanto os segundos seriam o “filisteu Golias”.
“Vixe! Estão se inspirando muito em novela da rede Record!”
A sétima: crença no que queriam acreditar. Muitos varzedenses, que creditaram seus votos à coligação “Por uma nova Varzedo”, nutriram suas expectativas no que sua imaginação criou, mesmo que fosse a coisa mais fictícia possível e que não partisse dos próprios candidatos.
“Que viagem!”
A oitava: acabar com o PT. Muitos eleitores, que talvez nem tenham proximidade com Bahia e Gilmar, viram nessa eleição a chance de acompanhar a onda antipetista que corre o Brasil, digitando o “20” como se seguisse a frase: “Fora PT!”.
A nona: a expectativa em um prefeito policial civil. Devido ao aumento da violência em Varzedo (assaltos, tráfico de drogas, assassinatos, poluição sonora de motocicletas sem descarga etc.) esperançosos varzedenses acham que a eleição de um policial civil para prefeito levará o município a uma “policialização no executivo” – um ‘xerife’ (do inglês sheriff)? –, podendo diminuir aqueles problemas.
Então, você que digitou seu voto à chapa majoritária da coligação “Por uma nova Varzedo” se encaixa em qual destas “lógicas”? Melhor do que responder aos outros é responder para si próprio.
Pode ser que um ou outro eleitor tenha se orientado por uma “lógica” que não se encaixa em nenhuma das acima citadas (Pode citar então nos “Comentários”). Agora, será que se pode dizer que muitos seguiram uma “coerência racional de ideias”, ou seja, uma lógica para votar?
Não estou aqui para julgar nem rechaçar quaisquer formas de pensamento, mas para levar à reflexão. O interessante é que cada pessoa que resolveu pleitear a favor da “Família 20” tenha sido orientado por sua razão, pois se a paixão falou mais alto estará longe de uma lógica sem aspas...  
Ainda mais agora que o sangue do povo se aquietou.
Até nosso próximo blog.

P.S.: alguém que leu pode perguntar: por qual razão o colunista Jorge Amorim não escreve um texto sobre as lógicas de quem não votou em Bahia e Gilmar? Respondo: vamos dar tempo ao tempo...

* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo (disponível na internet), e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do livro Entre a Serra e a Vargem (2007) e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença. E-mail para contato: amorimdoporto@hotmail.com

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