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domingo, 23 de outubro de 2016

Coluna da semana: Ironias com Varzedo, com a permissão que me cabe




Ironias com Varzedo
(peço permissão em fazê-las)

Por Jorge Amorim*

Quando entro por entre os terrenos acidentados de Varzedo, vendo as roças de laranja, mandioca, outras culturas agrícolas e os pastos cortados pelas variantes e a rodovia estadual Engenheiro Luís Sande (BA-026), e chego à sede do município, onde o pequeno comércio se espreme entre as residências, percebo coisas...
Coisas que vão além do que os olhos veem, mas que capto facilmente através de outras sensações. É como se o corpo passasse por transformações rápidas, comandadas pelo cérebro.
Pego como exemplo recente a época eleitoral – ainda ela! –, que praticamente dividiu o município entre “azuis” e “verdes”. Nas oportunidades que eu estive ali, geralmente final de semana, via que as atitudes de muita gente substituíam a fala.
Quem mora ali, e ora lê estas palavras, não venha me dizer que não percebeu a ausência de um conhecido que, inclinado a votar no candidato a prefeito que não era o seu, praticamente tomou chá de sumiço durante a campanha política?
“Esqueça disto!”
Sei também das muitas pessoas que mudaram suas rotas de andadas por Varzedo, desviando dos passeios e ruas onde ficavam casas de conhecidos votantes do candidato a prefeito que aquelas não iriam votar.
Melhor ainda: quando não tinham outro jeito de não passar, cumprimentavam com pressa como se fosse o diabo fugindo da cruz.
 Outra coisa interessante era ver o sorriso amarelo, beirando certo medo desconfortante, dos que ficavam filmando com o aparelho celular, vendo e contando – que masoquismo psicológico esse, hein!!! – o número de motocicletas e carros nas carreatas – proibidas, mas ocorridas! – e o de gente nas caminhadas e visitas. 
Saindo do mundo real e navegando para o virtual, consegui ler comentários no Facebook evocando Deus para tudo: ajudar a vencer a eleição, comandar a vitória, acabar com qualquer macumba ou feitiço ruim.
Interessante foi ler um comentário em que eu não sabia – pense!! – que Varzedo não está localizado no continente chamado América, mas sim na parte asiática chamada de Oriente Médio, região rica em petróleo e berço do judaísmo, cristianismo e islamismo.
Puxa, tem petróleo sob o solo varzedense e eu não sabia?
Mais. Num outro comentário aprendi que nós, varzedenses, devemos reclamar com os rabinos, intérpretes das leis judaicas, que não foram os hebreus, mas sim os varzedenses o ‘verdadeiro’ “povo de Israel”.
Antes de você abrir os olhos com espanto, deixe-me explicar.
É que um comentário no Facebook, escrito certamente por uma pessoa muito religiosa, dizia que o candidato a prefeito Valtinho e seu grupo “brincaram com o povo de Israel”.
Hum... Alguém pode me informar, por favor, onde em Varzedo está a Arca da Aliança, em que estão guardadas as duas tábuas contendo os 10 Mandamentos?
(Uma pausa: quem souber, informe-me, pois como um Amorim, cuja minha ascendência remonta aos judeus sefarditas que habitaram Portugal e Espanha séculos atrás, seria bom).
Para um povo tão abençoado e “escolhido por Javé”, até que denegrir a imagem dos outros com “calúnia e difamação” é perdoável, né! Ou não?
Ah, sou um estúpido mesmo! Lembrei que o “povo de Israel” é todo o povo de Deus. Mas vamos evitar uma “guerra santa” em Varzedo...
Deixe-me, por favor, concluir com uma reflexãozinha.
Neste ano, “Raízes do Brasil”, obra colossal do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), completa 80 anos (1936). Peço licença para fazer uma comparação de muitos varzedenses com o título de um dos textos daquela obra: “o homem cordial”, o que age pela emoção superficial, profundamente passageira e interesseira.
A ironia, que na época do filósofo ateniense Sócrates (469 a.C.-399 a.C.) significava “questionar, criticar”, foi usada por mim nestes parágrafos tanto para ser hilário como para deixar perguntas aos que desejarem.
Até nosso próximo blog. 

* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo (disponível na internet), e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do livro Entre a Serra e a Vargem (2007) e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença. E-mail para contato: amorimdoporto@hotmail.com


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