Por Jorge Amorim*
Quando
entro por entre os terrenos acidentados de Varzedo, vendo as roças de laranja,
mandioca, outras culturas agrícolas e os pastos cortados pelas variantes e a
rodovia estadual Engenheiro Luís Sande (BA-026), e chego à sede do município,
onde o pequeno comércio se espreme entre as residências, percebo coisas...
Coisas
que vão além do que os olhos veem, mas que capto facilmente através de outras
sensações. É como se o corpo passasse por transformações rápidas, comandadas
pelo cérebro.
Pego
como exemplo recente a época eleitoral – ainda ela! –, que praticamente dividiu
o município entre “azuis” e “verdes”. Nas oportunidades que eu estive ali,
geralmente final de semana, via que as atitudes de muita gente substituíam a
fala.
Quem
mora ali, e ora lê estas palavras, não venha me dizer que não percebeu a
ausência de um conhecido que, inclinado a votar no candidato a prefeito que não
era o seu, praticamente tomou chá de sumiço durante a campanha política?
“Esqueça
disto!”
Sei
também das muitas pessoas que mudaram suas rotas de andadas por Varzedo,
desviando dos passeios e ruas onde ficavam casas de conhecidos votantes do
candidato a prefeito que aquelas não iriam votar.
Melhor
ainda: quando não tinham outro jeito de não passar, cumprimentavam com pressa
como se fosse o diabo fugindo da cruz.
Outra coisa interessante era ver o sorriso
amarelo, beirando certo medo desconfortante, dos que ficavam filmando com o
aparelho celular, vendo e contando – que masoquismo psicológico esse, hein!!! –
o número de motocicletas e carros nas carreatas – proibidas, mas ocorridas! – e
o de gente nas caminhadas e visitas.
Saindo
do mundo real e navegando para o virtual, consegui ler comentários no Facebook
evocando Deus para tudo: ajudar a vencer a eleição, comandar a vitória, acabar
com qualquer macumba ou feitiço ruim.
Interessante
foi ler um comentário em que eu não sabia – pense!! – que Varzedo não está
localizado no continente chamado América, mas sim na parte asiática chamada de
Oriente Médio, região rica em petróleo e berço do judaísmo, cristianismo e
islamismo.
Puxa,
tem petróleo sob o solo varzedense e eu não sabia?
Mais.
Num outro comentário aprendi que nós, varzedenses, devemos reclamar com os
rabinos, intérpretes das leis judaicas, que não foram os hebreus, mas sim os
varzedenses o ‘verdadeiro’ “povo de Israel”.
Antes
de você abrir os olhos com espanto, deixe-me explicar.
É
que um comentário no Facebook, escrito certamente por uma pessoa muito
religiosa, dizia que o candidato a prefeito Valtinho e seu grupo “brincaram com
o povo de Israel”.
Hum...
Alguém pode me informar, por favor, onde em Varzedo está a Arca da Aliança, em
que estão guardadas as duas tábuas contendo os 10 Mandamentos?
(Uma
pausa: quem souber, informe-me, pois como um Amorim, cuja minha ascendência
remonta aos judeus sefarditas que habitaram Portugal e Espanha séculos atrás,
seria bom).
Para
um povo tão abençoado e “escolhido por Javé”, até que denegrir a imagem dos
outros com “calúnia e difamação” é perdoável, né! Ou não?
Ah,
sou um estúpido mesmo! Lembrei que o “povo de Israel” é todo o povo de Deus.
Mas vamos evitar uma “guerra santa” em Varzedo...
Deixe-me,
por favor, concluir com uma reflexãozinha.
Neste
ano, “Raízes do Brasil”, obra colossal do historiador Sérgio Buarque de Holanda
(1902-1982), completa 80 anos (1936). Peço licença para fazer uma comparação de
muitos varzedenses com o título de um dos textos daquela obra: “o homem
cordial”, o que age pela emoção superficial, profundamente passageira e
interesseira.
A
ironia, que na época do filósofo ateniense Sócrates (469 a.C.-399 a.C.)
significava “questionar, criticar”, foi usada por mim nestes parágrafos tanto
para ser hilário como para deixar perguntas aos que desejarem.
Até
nosso próximo blog.




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