Presença
de Nonô em Varzedo
Por Jorge Amorim*
Respeitado por muitos, xingado por outros, odiado por tantos ouros e
adorado por diversas pessoas, vejo que Nonô continua a ser ainda hoje uma figura presente em
Varzedo, e não é somente através do seu busto exposto na Praça 08 de Dezembro,
do seu nome dado à Escola Municipal Prefeito Manoel José de Souza, à Praça
Prefeito Manoel José de Souza (Praça do Mercado) e ao Posto de Saúde Prefeito
Manoel José de Souza, que fica no Tabuleiro do Braga.
Na
verdade, se a gente prestar bastante atenção na política de Varzedo, de 1993
até 2016, a influência de Nonô permanece firme nos políticos ligados aos
diferentes segmentos locais, começando pelo executivo municipal chegando até a
câmara de vereadores. Como isto é possível? Voltemos no tempo...
Nascido
em 05 de junho de 1920 com o nome de batismo Manoel José de Souza e filho de
pais arrendeiros** da fazenda dos Sampaio, Nonô trabalhou por anos como mascate
pela região, abrindo em 1952 sua Loja Sudoeste, comércio de venda de tecidos.
Casado com Erotildes Silva (Tide), filha do fazendeiro Eduardo Silva, em
janeiro de 1954, o comerciante acabou entrando na política.
Com
o apoio de Deraldo Demósthenes da Silva – pai biológico de Deraldinho, esposo
de Lúcia da professora Mocinha, Ari e Deraci – e Enéas Cardoso de Almeida,
ligados ao PSD, Nonô foi eleito vereador “quebrando” com a superioridade
política das famílias Oliveira, Quadros e Jesus que vinha desde a década de
1910.
Posso
dizer que ele, afrodescendente de origem pobre e semianalfabeto, foi diminuindo
o poder daquelas famílias na política da vila de Varzedo.
Daqueles
anos 1950 até 1988, Nonô estigmatizou seu poderio como vereador por meio deste
seu apelido, da sua ligação com os prefeitos de Santo Antônio de Jesus – quando
Varzedo pertencia a este – e das suas ações políticas que podemos denominá-las
de práticas. Em mais de 30 anos de vereança, aliando-se com amigos e
adversários, o filho de José Félix e dona Cecília enraizou e expandiu sua
política assistencialista.
Tendo
várias ligações com clínicas médicas, médicos, enfermeiros e o hospital de
Santo Antônio de Jesus, Nonô conduzia enfermos, gestantes, corpos e feridos
para aqueles centros de tratamento de saúde, servindo ainda como uma espécie de
“farmacêutico sem diploma” na sua Farmácia Sudoeste, em Varzedo, tratando de
lesões, dentes cariados e doenças leves, sem nunca deixar de baforar seu
charuto.
Dentre
muitos dos seus “pacientes”, muitos foram os eleitores que – talvez sob
conselhos de Nonô – acabaram sendo picados pela “mosca azul” da política,
muitos dos quais atuando em dias atuais na política local como vereadores.
Dentre vários vereadores e candidatos, das
seis eleições municipais ocorridas de 1992 até 2012 em cinco estavam candidatos
a prefeito e vice-prefeito que pertenceram ao “grupo de Nonô” e seus herdeiros Valtinho (1993-1996) e Tide (1997-2000). A exceção foi em 2004, quando Déu Araújo
(2005-2008) saiu vitorioso do pleito como prefeito e Toinho vice-prefeito.
Fora
quaisquer partidos, os parentes, amigos e afilhados de Nonô ocupantes de cargos
públicos carregam a herança de seu mentor político – uns pouco mais, outros
pouco menos –, alguns agindo das formas bem próximas das dele.
A
morte de Nonô, ocorrida em 17 de maio de 1992, um domingo ensolarado de outono,
marcou a continuação das suas influências nos discursos, no feriado municipal
(17/05, Projeto de Lei n° 003/92), na câmara municipal, no executivo municipal
e na mentalidade varzedense da época.
Nonô foi filho do seu
tempo. Nasceu num período que trazia restos de épocas anteriores, como as dos
velhos coronéis que lemos em romances e em livros de história. Mas ele trazia
uma “nova” forma de mando local.
Era o mando
caracterizado pela soma de DOMÍNIO+TEMOR+RESPEITO+AMOR. Ele ditava o que os
outros deveriam fazer e esses obedeciam (TEMOR+DOMÍNIO); era chamado ou
visitado para dar conselhos (RESPEITO); e raramente saía de Varzedo (AMOR).
Era
aquele que estava próximo do povo e, ao mesmo tempo, bem relacionado com
políticos importantes.
Nonô (a direita, a frente) recebendo em sua casa o prefeito de Santo
Antônio de Jesus, José Trindade Lôbo (1963-1966), ao centro, e o então
governador da Bahia Lomanto Júnior (1963-1967), à esquerda. No canto esquerdo, veem-se
muitos populares da vila de Varzedo. Fonte: Valter Bonfim Lago.
Quem
o conheceu sabia que a sua rotina diária era casa-farmácia-bar, na qual era realizada em um dos seus veículos ou
a pé. Repetia palavras em falas coloquiais, completando-as com o velho jargão
em forma de xingamento: “filho da p...”. Era uma raposa política.
Não que ele continue influenciando as práticas políticas de muitos dos nossos representantes, pois alguns destes já estão mais adequados aos tempos de hoje. Mas, querendo ou não, alguns que já ocuparam cadeiras na câmara municipal e no executivo trazem um gene de "DNA nonoísta", mesmo que hoje discorde do que ele fez no passado.
Muitos dos que leem este blog talvez não os tenha conhecido, somente ouvindo falar dele através dos mais velhos. Ter escrito um pouco sobre Nonô foi ter revivido uma figura que deixou marcas na história política e social varzedenses. Assim como outros, ele não pode ser jogado na vala comum do esquecimento.
Creio
não ter tornado Nonô nem herói nem vilão, mas sim um ser humano dotado de
características humanas, de acordo com o seu tempo, seguindo seus interesses
particulares ou coletivos. Nonô não pode ser visto como um mito ou um mártir, e
sim um político que fez o máximo por sua terra. Se isso se chamou amor ou
interesse, caberá a cada um interpretar.
Ao final, deixo esta pergunta: como seria Nonô na Varzedo do século XXI, caso ele estivesse vivo?
* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa
(Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo
emancipatório de Varzedo (disponível na internet),
e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do
livro Entre a Serra e a Vargem (2007)
e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença.
** O mesmo que meeiros, ou seja, que trabalham por renda e/ou dividindo
a renda com o fazendeiro ou dono de determinada cultura agrícola.




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