Entre homossexuais e piriguetes: como agem os varzedenses diante das suas “minorias”?
Por Jorge Amorim*

Varzedo, município que fica na parte sul do Recôncavo baiano, é um lugar interessante, da mesma forma como outros. Quem mora na sede de 1990 para cá, passou a ouvir que “Varzedo é uma família”, dando a ideia de união e igualdade entre todos.
Este “todos” quer dizer os fazendeiros, lavradores de roças, autônomos, servidores públicos, aposentados, pensionistas e beneficiados do programa Bolsa Família. Lógico que de imediato veremos diferenças abissais naqueles “todos”, desde questões econômicas até de conhecimento.
Mas não vou entrar nesse debate enfadonho de “lutas de classes”, que a gente que trabalha com as ciências humanas conhece muuuuuuiiito bem. Gostaria de tratar das “minorias” varzedenses, da maneira, a meu ver, como são vistas pela maioria.
Antes de tudo, defino como “minorias” aquelas pessoas tidas como “anormais”, consideradas assim por não estarem enquadradas nos padrões sociais “normais”, podendo citar os débeis mentais, os homossexuais e as piriguetes, os quais são os mais comuns sobre o solo varzedense.
Hoje alguns já sumiram, entretanto tempos passados Varzedo era palco para as artimanhas de Ana “Doida”, Fifi, Botão, tidos como motivos de pilhérias para muitos varzedenses.
Identificados com suas particulares demências mentais – se este termo “demências mentais” estiver errado, por favor, alguém me corrija –, Ana “Doida”, Fifi e Botão circulavam na Rua de Cima e Rua de Baixo fazendo zoada e quebrando um pouco a mesmice: Ana cantava músicas do momento; Botão gritava e brigava; Fifi batia uma lata e cantava.
Outra “minoria” que servia de chacota – hoje nem tanto – era a dos homossexuais, vulgarmente chamados de veados e sapatonas. Era engraçado as pessoas falarem quem era bicha a boca pequena, temendo que chegasse aos ouvidos do suposto “veado ou sapatona incubado” ou de alguém da família.
Todo mundo cumprimentava, conversava e brincava com os homossexuais, saídos ou não do armário, porém ficava com certo pé atrás para não alongar cumprimentos, conversas e brincadeiras, com o fim de não ser confundido como uma “bicha incubada”.
Ficava sempre alguém dizendo aos que ouviam: “– Olha Fulano, aquele veado descarado fingindo ser homem!”, ou “– A filha de Sicrano parece um homem, toda machona!”, frases repressivas e preconceituosas cotidianamente ditas.
E as garotas namoradeiras chamadas pejorativamente de piriguetes? Bem, há uma diferença entre as “piriguetes pobres” e as “piriguetes de família”. Embora ambas possuam o menosprezo machista da sociedade local, as “piriguetes de cor e de menos condição” são olhadas com preconceito, enquanto as “piriguetes de família” são cumprimentadas e mal faladas à boca pequena.
Querendo ou não, o tratamento entre os dois tipos de piriguetes varzedenses é desigual a partir do lugar onde elas moram, de quem são filhas, primas, sobrinhas e netas, do trabalho que os pais possuem, das ligações destes com os políticos locais, da religião que seguem, revelando as relações de poder em Varzedo.
As duas últimas categorias sociais citadas acima, a dos homossexuais e a das piriguetes, apesar das discriminações são válvulas de escape sexual para gente solteira, noiva e casada. A sexualidade em Varzedo é muito acentuada e precoce, servindo como forma de domínio entre quem “pega” piriguete, veado ou sapatona.
Podemos até não ver, mas sabemos que existem piadas de mau gosto, abusos, assédios e outras formas de violências contra aquelas pessoas e outras que não se incluem naqueles segmentos.
Lugar pequeno e cheio de vícios, Varzedo traz nas suas casas e ruas a ideia de que débeis mentais, homossexuais e piriguetes constituem o conjunto social. Ainda assim, quando se fala em vê-las ter uma representação maior isto fica na letra morta, por serem vistos como “gente baixa”, principalmente os homossexuais e as piriguetes.
Até que alguns são dessa forma, contudo há exceções.
O fato é que entre as “minorias” e a maioria utilizamos máscaras para dar andamento ao cotidiano, uma das bases principais da vida na sede de Varzedo, no Tabuleiro do Castro, São Roque nos Macacos, Areia Grossa, Braga, Barro, Dendê, Nossa Senhora do Carmo, Serra, Riacho Seco, Calugi, Rio Preto e outros lugares.
Busquemos cada um, individualmente, tornar nosso município um exemplo de tolerância entre as diferenças. Afinal, NINGUÉM=NINGUÉM.
Até nosso próximo blog.
* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo (disponível na internet), e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do livro Entre a Serra e a Vargem (2007) e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença. E-mail para contato: amorimdoporto@hotmail.com



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