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sábado, 23 de julho de 2016

Coluna da semana: Por que muita coisa de Varzedo se acaba com o tempo?





Por que (quase) tudo, segundo dizem lá, acaba em Varzedo?

Por Jorge Amorim*




Ao escrever o livro Entre a Serra e a Vargem, tive a intenção de registrar acontecimentos históricos e manifestações culturais de Varzedo desde a época em que era arraial pertencente a Santo Antônio de Jesus, no século XIX, até o século XX. Muita coisa lá registrada, porém, ficou no passado, quase que terminada.
E tem mais.
Quando converso com alguém em Varzedo, seja jovem, adulto e idoso, acabo sempre ouvindo a reclamação de que ali tudo terminou, referindo-se a festas e comemorações ocorridas anos atrás e que atualmente têm pouca ou quase nenhuma participação popular. Cito agora algumas delas.
  O novenário da festa da padroeira Nossa Senhora Imaculada Conceição (08 de dezembro), as visitas de casa em casa no São João (23 e 24 de junho), ternos-de-reis (06 de janeiro), apresentações de burrinhas, bumba-meu-boi, competições de argolinha, jogos de futebol aos domingos, prédios antigos e a lavagem da Rua Maria Alvina.
         Estou exemplificando estas manifestações religiosas, culturais, arquitetônicas e desportivas por serem as que mais estão em minha lembrança de criança, adolescente e adulto. O que pode ter levado tudo aquilo a perder os seus brilhos próprios em Varzedo?
Posso arriscar algumas hipóteses.
A diminuição dos festejos a Imaculada Conceição tem como consequência a da ascensão de outras denominações cristãs, o afastamento de muita gente discordante de alguns dogmas católicos e a noção de que não é somente a Igreja Católica Apostólica Romana e seus rituais que podem nos levar ao Ser Superior.
Quanto aos outros movimentos culturais, arquitetônicos e esportivos (São João, terno-de-reis, burrinha, bumba-meu-boi, futebol, argolinha e lavagem da Rua Maria Alvina), eu faria um esboço mais pessoal do varzedense: trabalho, conhecimento de outros lugares, desvalorização do local, carência de identidade e o negativismo.
           Quando foi a última vez que você que lê este blog assistiu a um jogo de argolinha? O daqui registrado na fotografia eu tive a satisfação de ser um espectador quando ocorreu na atual fazenda de Nelito e Nilza em... 2001.




  
O interessante é que cada uma daquelas características que detectei no varzedense está ligada uma com a outra: tendo um trabalho remunerado, muitos começaram a viajar e conhecer outras cidades; com isto, a desvalorização da terra natal aumentou pela falta de identificação com ela, reforçada com o negativismo, isto é, o achar que nada em Varzedo vai pra frente.
Há quem diga que o mundo pós-moderno e suas dádivas (redes sociais, tecnologias, acesso ao consumo, facilidade para o prazer etc.) são responsáveis por fazer Varzedo ser engolida pela inacessibilidade a muitas delas, excetuando as redes sociais, obtidas no mundo virtual em qualquer lugar com wi-fi disponível.
Creio ser possível haver o que o sociólogo inglês Stuart Hall disse em seu livro A identidade cultural na pós-modernidade, mostrando que diante do gigante chamado globalização o lugar (seja Varzedo ou outro) pode encontrar um equilíbrio para aceitar o que vem de fora, mas sem deixar perder o que é seu.
Para quem alcançou a fachada do templo batista Betel, vista aqui na fotografia abaixo registrada por mim em 2001, pergunto se se poderia derrubar tão bela obra arquitetônica ao invés de conservá-la?





O problema é que quem pode realizar isto é a própria Varzedo a partir dos seus bens mais raros: seu cidadão e sua sociedade. Mas o que estes devem fazer?
Conhecendo um pouco Varzedo como conheço, vejo que é “para ontem” o varzedense estimular seu OTIMISMO. Expulsar a atmosfera pessimista é a primeira tarefa, sabendo-se que a educação é uma das bases para isto. Por que eu apelo para o OTIMISMO local?
Responderei no próximo blog. Até ele.  
           
* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo (disponível na internet), e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do livro Entre a Serra e a Vargem (2007) e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença. E-mail para contato: amorimdoporto@hotmail.com 
 
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