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sábado, 25 de junho de 2016

O “sentimento de pertencer” do varzedense: como estimular?







Por Jorge Amorim*




“Viajo pra tudo que é lugar, mas quando desço do ônibus nas Sete Portas sinto que cheguei em casa”. Depois de ouvir esta frase de Rita Miranda na sessão solene do último dia 13 de junho, em comemoração aos 27 anos de emancipação, comecei a pensar na seguinte questão: o que falta para estimular no varzedense o “sentimento de pertencer” ao lugar?
Para responder tal pergunta, vamos entender um pouco da formação de Varzedo. Ficando entre os municípios de Castro Alves, Santo Antônio de Jesus, São Miguel das Matas, os mais antigos, e os de Conceição do Almeida e Elísio Medrado, um pouco mais novos, Varzedo surgiu no meio desses diferentes lugares no século XIX, com o nome de Vargem Grande.
Naquele século, no ano de 1868, Vargem Grande era fundado como arraial a partir da capela construída pelo padre Antônio Ângelo Gomes de Mendonça, provavelmente em uma propriedade a ele pertencente que ficava onde hoje é a Praça 08 de Dezembro. Isto quer dizer que Vargem Grande nasceu sob bênçãos cristãs.
A economia do lugar era feita pela produção de farinha de mandioca, outras culturas agrícolas (laranja, café, fumo, cacau etc.) e a pecuária. Enquanto isso, a população crescia da mistura dos que nasciam ali com os que vinham de fora, principalmente afugentados dos locais punidos pela seca ou de outras paragens litorâneas.
Pela proximidade com Santo Antônio de Jesus, o lugar que possuía uma vargem quilométrica ampliava a disputa política entre dois grupos, os quais um era favorável ao governo local e outro contra. Partido Liberal X Partido Conservador, UDN X PSD, Jacu X Beija-flor, Arena 01 X Arena 02 marcaram brigas políticas que ultrapassaram o equilíbrio para chegarem à paixão.
Além disso, a cultura local foi – e continua a ser – marcada por terno-de-reis, burrinha, carurus, quadrilhas juninas; lendas do lobisomem, da cavala, das jaqueiras mal-assombradas, do cavaleiro da meia-noite, da caipora; dos “roubos” – ou mutirão – de culturas agrícolas e das cantigas entoadas nas colheitas de café.
Destas coisas todas, uma parte foi exterminada, outra foi conservada e outra foi recebendo adaptações das diferentes épocas. Então, posso dizer que o varzedense atual tem aquelas três características: extermina, conserva e se adapta.
A pergunta que não quer calar: o que identifica o varzedense?
Algumas respostas: falar mal do governo local, mas recorrendo a ele quando convém e pode; considerar que habita um lugar que é sinônimo de atraso, porém se alguém de fora falar mal ele se enraiva; mostrar ser flexível, contudo é conservador em muitos aspectos.
Claro que estes pontos não são a totalidade, entretanto correspondem a determinados caracteres locais. Por não ter muitas opções, pode-se dizer que em Varzedo não tem algo que pode ser aproveitado?
Será que ainda devemos achar que para Varzedo crescer é preciso se espelhar em Santo Antônio de Jesus, ou buscar o que lhe é essencial, o que lhe pertence, como questões agrícolas e culturais?
Valorizar o que é nosso é conhecer e reconhecer a gente e a nossa história. Para tal, a união entre autoridades públicas e sociedade local é o primeiro passo para uma antiquíssima afirmação que tem origem na Grécia antes de Cristo, da época do filósofo Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”.
A pessoa que lê este blog, e que é varzedense, por favor, responda a esta minha indagação: ao se falar o nome Varzedo o que logo vem à sua mente? Tic-tac... tic-tac...tic-tac...
Seria a resposta o nome de algum vulto valoroso? Uma dança folclórica? Vários nomes renomados? Um acidente geográfico? Suas culturas agrícolas? A religiosidade cristã?
Eu poderia ousar dizer que a identidade varzedense, isto é, o “sentimento de pertencer” do varzedense é justamente a diversidade que coloquei nas perguntas acima. Poderia ser a resposta que procurávamos?
Estando hoje mais de 80 quilômetros de Varzedo, fica mais fácil vê-la sob um olhar científico, distante, pois as pesquisas já foram recolhidas – e  ainda estão sendo.



                               Capa da obra Entre a Serra e a Vargem (2007), que 
                               foi pesquisada e escrita por mim, a qual busca uma
                               análise histórico-cultural de Varzedo entre o século
                               XIX e o século XX. Seria a busca pela identidade do
                               varzedense?


 Independente do tamanho, todo lugar possui sua identidade, seu “sentimento de pertencer”, e o povo de Varzedo precisa se conscientizar disso, sem precisar exagerar no bairrismo. O tempo se responsabilizará por isto.

Até nosso próximo blog.

* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo (disponível na internet), e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do livro Entre a Serra e a Vargem (2007) e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença.

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