Por
Jorge Amorim*

“Viajo
pra tudo que é lugar, mas quando desço do ônibus nas Sete Portas sinto que
cheguei em casa”. Depois de ouvir esta frase de Rita Miranda na sessão solene
do último dia 13 de junho, em comemoração aos 27 anos de emancipação, comecei a
pensar na seguinte questão: o que falta para estimular no varzedense o
“sentimento de pertencer” ao lugar?
Para
responder tal pergunta, vamos entender um pouco da formação de Varzedo. Ficando
entre os municípios de Castro Alves, Santo Antônio de Jesus, São Miguel das
Matas, os mais antigos, e os de Conceição do Almeida e Elísio Medrado, um pouco
mais novos, Varzedo surgiu no meio desses diferentes lugares no século XIX, com
o nome de Vargem Grande.
Naquele
século, no ano de 1868, Vargem Grande era fundado como arraial a partir da
capela construída pelo padre Antônio Ângelo Gomes de Mendonça, provavelmente em
uma propriedade a ele pertencente que ficava onde hoje é a Praça 08 de
Dezembro. Isto quer dizer que Vargem Grande nasceu sob bênçãos cristãs.
A
economia do lugar era feita pela produção de farinha de mandioca, outras
culturas agrícolas (laranja, café, fumo, cacau etc.) e a pecuária. Enquanto
isso, a população crescia da mistura dos que nasciam ali com os que vinham de
fora, principalmente afugentados dos locais punidos pela seca ou de outras
paragens litorâneas.
Pela
proximidade com Santo Antônio de Jesus, o lugar que possuía uma vargem
quilométrica ampliava a disputa política entre dois grupos, os quais um era
favorável ao governo local e outro contra. Partido Liberal X Partido
Conservador, UDN X PSD, Jacu X Beija-flor, Arena 01 X Arena 02 marcaram brigas
políticas que ultrapassaram o equilíbrio para chegarem à paixão.
Além
disso, a cultura local foi – e continua a ser – marcada por terno-de-reis,
burrinha, carurus, quadrilhas juninas; lendas do lobisomem, da cavala, das
jaqueiras mal-assombradas, do cavaleiro da meia-noite, da caipora; dos “roubos”
– ou mutirão – de culturas agrícolas e das cantigas entoadas nas colheitas de
café.
Destas
coisas todas, uma parte foi exterminada, outra foi conservada e outra foi
recebendo adaptações das diferentes épocas. Então, posso dizer que o varzedense
atual tem aquelas três características: extermina, conserva e se adapta.
A
pergunta que não quer calar: o que identifica o varzedense?
Algumas
respostas: falar mal do governo local, mas recorrendo a ele quando convém e
pode; considerar que habita um lugar que é sinônimo de atraso, porém se alguém de
fora falar mal ele se enraiva; mostrar ser flexível, contudo é conservador em
muitos aspectos.
Claro
que estes pontos não são a totalidade, entretanto correspondem a determinados caracteres
locais. Por não ter muitas opções, pode-se dizer que em Varzedo não tem algo
que pode ser aproveitado?
Será
que ainda devemos achar que para Varzedo crescer é preciso se espelhar em Santo
Antônio de Jesus, ou buscar o que lhe é essencial, o que lhe pertence, como
questões agrícolas e culturais?
Valorizar
o que é nosso é conhecer e reconhecer a gente e a nossa história. Para tal, a
união entre autoridades públicas e sociedade local é o primeiro passo para uma
antiquíssima afirmação que tem origem na Grécia antes de Cristo, da época do
filósofo Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”.
A
pessoa que lê este blog, e que é
varzedense, por favor, responda a esta minha indagação: ao se falar o nome Varzedo o que logo vem à sua mente?
Tic-tac... tic-tac...tic-tac...
Seria
a resposta o nome de algum vulto valoroso? Uma dança folclórica? Vários nomes
renomados? Um acidente geográfico? Suas culturas agrícolas? A religiosidade
cristã?
Eu
poderia ousar dizer que a identidade varzedense, isto é, o “sentimento de
pertencer” do varzedense é justamente a diversidade que coloquei nas perguntas
acima. Poderia ser a resposta que procurávamos?
Estando
hoje mais de 80 quilômetros de Varzedo, fica mais fácil vê-la sob um olhar
científico, distante, pois as pesquisas já foram recolhidas – e ainda estão sendo.
Capa da obra Entre a Serra e a Vargem (2007), que
foi pesquisada e escrita por mim, a qual busca uma
análise histórico-cultural de Varzedo entre o século
XIX e o século XX. Seria a busca pela identidade do
varzedense?
Independente
do tamanho, todo lugar possui sua identidade, seu “sentimento de pertencer”, e
o povo de Varzedo precisa se conscientizar disso, sem precisar exagerar no
bairrismo. O tempo se responsabilizará por isto.
Até
nosso próximo blog.
* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa
(Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo
emancipatório de Varzedo (disponível na internet),
e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do
livro Entre a Serra e a Vargem (2007)
e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença.



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