Quem quer saber ou lembrar o São João de Varzedo antigamente? (saudades!...)
Por Jorge Amorim*
Algumas ruas da vila de Varzedo
ganhavam, lá por volta da década de 1980, contornos juninos, com caules de
bambus amarrados aos postes de luz, na época de madeira. Na Praça 08 de
Dezembro, que ficava na parte que chamávamos de Rua de Cima, os bambus formavam
arcos altos enfeitados por bandeirolas coloridas feitas de papel crepom e
fixadas aos barbantes por cola de goma.
Enquanto isso, nas frentes das
casas as fogueiras eram montadas, tendo ao lado imbaúbas retiradas da roça de
café de seu Eduardo, pai de Tide, do caminho da Torneira ou de uma matinha da
fazenda de Nonô que ficava um pouco além do cemitério, perto do sítio de dona
Sinésia e seu Pantaleão.
Dentro das casas as bandeirolas
e ventarolas ornamentavam as salas de visitas, devidamente varridas, lavadas e
cheirosas pela cera vermelha da marca Cardeal. Quem tinha condição, comprava
conjunto de sofá novo lá em Santo Antônio de Jesus, armário para cozinha,
estante para a sala de janta, televisor de tubo ou conjunto de som da Sonata.
Nesse período, a comercial São Luís, a Eletro-Rio, loja Tio Correa, Sibelly
Móveis e outros comércios ganhavam uma boa grana com quem estava renovando a
casa.
Na maioria das casas, quase que
na totalidade cobertas por telhas de cerâmica, as cozinhas eram locais onde
canjica, lelê, milho cozido, bolos, laranjas, amendoins e licores de jenipapo,
uvas-passas, maracujá e outros sabores eram preparados em pratos e bandejas. Quem
tinha um dinheirinho a mais, comprava queijo-cuia, normalmente o Palmeira.
Algumas famílias recebiam
parentes vindos de Salvador, que na vila chegavam nos ônibus da empresa
TRANSRAMAL (Transportes Ramos Amaral S/A) ou pela viação VIAZUL, depois
substituída pela CIDADE SOL, JAUÁ e CAMURUJIPE. Enquanto isso, no salão
paroquial, que ficava anexado a casa paroquial, próxima a igreja da matriz e ao
lado do templo batista Betel, a professora Mita ensaiava os passos a quadrilha
junina Arraiá de Varzedo.
Era o dia 23 de junho, véspera de São João, função** mais esperada pela
maioria do povo dali.
Caía a noite daquela data e um
friozinho tomava conta do lugar. Aos poucos, as fogueiras eram acesas pelos
pais e mães de família ou conhecidos, ao passo que traques, cobrinhas,
chuvinhas e outros fogos de artifício começavam a animar as ruas, nas quais
eram pisadas por grupos ou grupelhos com chapéus de palha que chegavam nas
portas abertas das casas dos conhecidos e falavam algo:
- Ó de casa! Cadê o licor? Pode
entrar?
Imediatamente, os donos da residência respondiam com um “Pode entrar!
Vai entrano!” E assim, as casas eram visitadas por pessoas conhecidas e até
desconhecidas que entornavam licor, comiam amendoim e milho cozidos, comiam
bolos e chupavam laranjas. Se a casa estivesse com o som ligado, passando
discos de Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Zé Mamede ou de outros cantores de
forró com sucesso no momento, as visitas rápidas davam um tempinho dançando.
Passava a noite da véspera de
São João, com Neca Capenga sentado numa das portas do bar Sudoeste (pertencente
a Nonô, onde hoje é o restaurante e lanchonete Lago, de Valtinho) embriagado, e
o dia daquele santo continuava com as visitas no fim da manhã e início da
tarde.
No meio desta, o povo ia e
acumulando na Praça 08 de Dezembro para assistir a apresentação da quadrilha
junina de Varzedo e de outros lugares, animadas pelo conjunto de sanfona,
zabumba, triângulo e pandeiro.
“Cumprimentar o público!”,
“Damas e cavalheiros ao centro!”, “Ói o túnel!”, “Olha a paquera!”, “Feijão tá
caro!”, “Olha o pai da moça!” eram alguns dos muitos passos da quadrilha
marcada pela professora Mita, esposa de Vadinho da padaria (in memorian), que na fotografia vemos (ao centro, de chapéu de palha, saia vermelha e blusa branca) em festa de São João em algum ano da década de 1980.
Dessa forma, a festa mais
aguardada pela vila de Varzedo, a festa de São João, deixava lembranças. O São
João de grandes atrações musicais, na maioria sem tocar forró, vem ganhando
corpo no atual município varzedense, influência de outros lugares maiores e
próximos. Vejo, porém, que até mesmo gente mais nova sente a necessidade de um
São João mais ou menos parecido ao descrito acima.
Creio que autoridades públicas e
sociedade local podem se organizar neste pensamento daqui para frente. O “São
João dos palcos” separa as pessoas, enquanto o “São João das visitas de casa em
casa” aproximam famílias e amigos, o que vem faltando na Varzedo atual. Seria
possível unir um com o outro?
É algo a ser pensado.
FELIZ SÃO JOÃO!
P.S.:
sei que estarei esquecendo alguém aqui (e
ficaria agradecido se quem está lendo este texto fizesse nos Comentários alusão
a algum nome que se lembre. Pode ser?), mas gostaria de relembrar os nomes
de presenças constantes nos festejos de São João varzedense (todos in memorian): Pirrita (Mariá), Manuel
Pereira, Ló de dona Zequinha, Nonô e Tide, Barrigudo (meu pai), Nonô de Rosa,
Benício de Tica, Zeca Alemão, Áurea, Vadinho da professora Mita, Vadinho Lopes,
Otávio Barreto, João Barreto, Josias Careca, João das Sete Portas, Joaquim da
Rua da Palha, Nâni, Erundina, seu Zuca de dona Lia, Manuel de Zezé do cartório,
Ranulfo Barreto, Neca Capenga, Varzedinho (Manoel de Porfírio), Carlinhos
“Picoflex”, Zé de Arlindo (meu tio), Zito de tia Dete, Edvaldo “Baga”, Antônio
de dona Angelina, Zeca Coelho, Jeremias de dona Didi, Mizael Barreto...
* Mestre em História
Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação
defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo (disponível na internet), e professor da Faculdade
Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do livro Entre a Serra e a Vargem (2007) e
escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença.
** O mesmo que festa ou
folguedo.





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