Varzedo em algumas linhas: tempos e necessidades de hoje (2ª
parte)
Por Jorge Amorim*

A lei estadual nº 5.002, de 13
de junho de 1989, assinada pelo então governador da Bahia Nilo Coelho – filiado
ao PMDB na época –, tornou Varzedo, o “povoado antigo” como citou Isaías Alves
em seu livro Matas do Sertão de Baixo, em um município que desencadeou dali até 2012 –
última eleição municipal – as candidaturas para a votação de prefeitos,
vice-prefeitos e vereadores, cujos cargos majoritários, os de prefeito, tiveram
disputas que marcaram algumas eleições.
Entre 1989 e 2012,
quem votou em prefeito e vice-prefeito nas seções eleitorais de Varzedo – e
mesmo quem só viu – lembrará certamente que a emoção estava a frente anos-luz
de qualquer razão durante os comícios e nos dias dos escrutínios de Nonô e
Mesquita (PMDB) contra Flomário e
Chico (PSC) [1989], Valtinho e Pedro de Cupertino (PFL) como única
chapa [1992], Tide e Manoel de Avelino (PFL) contra doutor Ismar e Elzo Nery (PTB) [1996], Valtinho e Antônio de
Darino (PFL) contra Manoel de Avelino e
doutor Ismar (PL) [2000], Déu Araújo e Toinho (PL) contra Radaman e Manuel (PT) [2004], Radaman e Manoel de Avelino
(PT) contra Déu Araújo e Gilmar (PP)
[2008], Radaman e Manoel de Avelino (PT) contra
Nobre e Ito (PSD) [2012].
Aconteceu de tudo em todas aquelas consultas eleitorais, principalmente depois de
fechadas ou lacradas as urnas. A questão, porém, é que todos os candidatos, de
um lado e de outro, fizeram planos de governo para terem seus registros válidos
no Tribunal Regional Eleitoral. Na maioria dos governos, o que os jingles cantavam nas campanhas eleitorais
eram congelados ali mesmo.
Em outras palavras, era como se
as ações pró-emancipação,
a exemplo das atitudes dos professores e dos estudantes do antigo 2ª grau, os
poemas de Chico da farmácia, os textos de Edinho de Ló, as palavras de padre
Gilberto e de tantos outros ficassem conservadas como peças de museu.
Sei que o caro leitor ou a cara
leitora pode não relembrar certos fatos de Varzedo, pode já ter ouvido falar,
lido ou mesmo pode nem saber o significado do nome, o qual significa “conjunto
de vargens” e deriva de “vargedo”.
Nesses 27 anos de
emancipação político-administrativa, o município está dando sua módica
contribuição demográfica para o Recôncavo baiano; viu o seu primeiro prefeito,
Manoel José de Souza, o Nonô (1920-1992), ser assassinado em 1992 e neste mesmo
ano passar por outros dois prefeitos; contribuiu com a entrada anual de muitos
dos seus jovens em universidades públicas e particulares; viu e vê o crescimento da violência e do tráfico de
drogas tanto na zona urbana como na zona rural; reparou no aumento da
diversidade religiosa do cristianismo; e retardou a
possibilidade de seu crescimento econômico a partir de projetos criados,
desenvolvidos e que, passado o afã, definharam.
Brasão do município de
Varzedo, segundo o artigo 7° da Lei Orgânica do Município, promulgada em 13 de
junho de 1990, tendo as suas riquezas representadas: religiosidade (coroa), citricultura,
pecuária e maniocultura.
Se Varzedo parece ter grande
vontade de avançar, o que a impede de seguir neste caminho? Empenho e exigência
dos varzedenses, que têm uma comunidade universitária relevante? Falta absurda
de projetos a médio e longo prazo por parte dos seus representantes políticos,
os quais ainda permanecem com o velho assistencialismo sobrepujando ideias mais
atualizadas?
O hino a Varzedo, de autoria
minha e dos colegas Luís Antônio Santos Souza e Nailton Santana, e a sua
bandeira trazem, respectivamente, glórias e valores cantados e suas principais
riquezas representadas – religiosidade, pecuária, citricultura e maniocultura
–, de maneira que tudo isso não pode mais ser relembrado no dia 13 de junho,
aniversário do município.
A meu ver, uma das saídas para
que Varzedo execute a sua sempre rechaçada busca do crescimento é a de um
projeto entre sociedade representada e representantes políticos que trate de
focar nas características peculiares do lugar, o que quer dizer aproveitar as mentes
pensantes varzedenses, sem deixar de lado apoios positivos vindos de fora.
Duas questões. Não parece,
economicamente falando, contradição absurda Varzedo ter um território rural
produtor extensivo de laranja e mandioca e não ter esse potencial agrícola
aproveitado em cooperativas para o beneficiamento da laranja e seus
subprodutos, assim como o beneficiamento dos subprodutos da mandioca? E não
parece, politicamente falando, antagonismo absurdo Varzedo não ter na sua
câmara de vereadores um edil ou mais edis com diploma universitário, tendo
vários dos seus filhos com essa prerrogativa?
* Mestre em História
Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação
defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo (disponível na internet), e professor da Faculdade
Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do livro Entre a Serra e a Vargem (2007) e
escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença.



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