.

sábado, 11 de junho de 2016

Coluna da semana: emancipação de Varzedo - 2ª parte









Varzedo em algumas linhas: tempos e necessidades de hoje (2ª parte)



Por Jorge Amorim*




A lei estadual nº 5.002, de 13 de junho de 1989, assinada pelo então governador da Bahia Nilo Coelho – filiado ao PMDB na época –, tornou Varzedo, o “povoado antigo” como citou Isaías Alves em seu livro Matas do Sertão de Baixo, em um município que desencadeou dali até 2012 – última eleição municipal – as candidaturas para a votação de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, cujos cargos majoritários, os de prefeito, tiveram disputas que marcaram algumas eleições.
Entre 1989 e 2012, quem votou em prefeito e vice-prefeito nas seções eleitorais de Varzedo – e mesmo quem só viu – lembrará certamente que a emoção estava a frente anos-luz de qualquer razão durante os comícios e nos dias dos escrutínios de Nonô e Mesquita (PMDB) contra Flomário e Chico (PSC) [1989], Valtinho e Pedro de Cupertino (PFL) como única chapa [1992], Tide e Manoel de Avelino (PFL) contra doutor Ismar e Elzo Nery (PTB) [1996], Valtinho e Antônio de Darino (PFL) contra Manoel de Avelino e doutor Ismar (PL) [2000], Déu Araújo e Toinho (PL) contra Radaman e Manuel (PT) [2004], Radaman e Manoel de Avelino (PT) contra Déu Araújo e Gilmar (PP) [2008], Radaman e Manoel de Avelino (PT) contra Nobre e Ito (PSD) [2012].
Aconteceu de tudo em todas aquelas consultas eleitorais, principalmente depois de fechadas ou lacradas as urnas. A questão, porém, é que todos os candidatos, de um lado e de outro, fizeram planos de governo para terem seus registros válidos no Tribunal Regional Eleitoral. Na maioria dos governos, o que os jingles cantavam nas campanhas eleitorais eram congelados ali mesmo.
Em outras palavras, era como se as ações pró-emancipação, a exemplo das atitudes dos professores e dos estudantes do antigo 2ª grau, os poemas de Chico da farmácia, os textos de Edinho de Ló, as palavras de padre Gilberto e de tantos outros ficassem conservadas como peças de museu.
Sei que o caro leitor ou a cara leitora pode não relembrar certos fatos de Varzedo, pode já ter ouvido falar, lido ou mesmo pode nem saber o significado do nome, o qual significa “conjunto de vargens” e deriva de “vargedo”.
Nesses 27 anos de emancipação político-administrativa, o município está dando sua módica contribuição demográfica para o Recôncavo baiano; viu o seu primeiro prefeito, Manoel José de Souza, o Nonô (1920-1992), ser assassinado em 1992 e neste mesmo ano passar por outros dois prefeitos; contribuiu com a entrada anual de muitos dos seus jovens em universidades públicas e particulares; viu e vê o crescimento da violência e do tráfico de drogas tanto na zona urbana como na zona rural; reparou no aumento da diversidade religiosa do cristianismo; e retardou a possibilidade de seu crescimento econômico a partir de projetos criados, desenvolvidos e que, passado o afã, definharam.


Brasão de Varzedo - BA 

Brasão do município de Varzedo, segundo o artigo 7° da Lei Orgânica do Município, promulgada em 13 de junho de 1990, tendo as suas riquezas representadas: religiosidade (coroa), citricultura, pecuária e maniocultura.


 Se Varzedo parece ter grande vontade de avançar, o que a impede de seguir neste caminho? Empenho e exigência dos varzedenses, que têm uma comunidade universitária relevante? Falta absurda de projetos a médio e longo prazo por parte dos seus representantes políticos, os quais ainda permanecem com o velho assistencialismo sobrepujando ideias mais atualizadas?
O hino a Varzedo, de autoria minha e dos colegas Luís Antônio Santos Souza e Nailton Santana, e a sua bandeira trazem, respectivamente, glórias e valores cantados e suas principais riquezas representadas – religiosidade, pecuária, citricultura e maniocultura –, de maneira que tudo isso não pode mais ser relembrado no dia 13 de junho, aniversário do município.
A meu ver, uma das saídas para que Varzedo execute a sua sempre rechaçada busca do crescimento é a de um projeto entre sociedade representada e representantes políticos que trate de focar nas características peculiares do lugar, o que quer dizer aproveitar as mentes pensantes varzedenses, sem deixar de lado apoios positivos vindos de fora.
Duas questões. Não parece, economicamente falando, contradição absurda Varzedo ter um território rural produtor extensivo de laranja e mandioca e não ter esse potencial agrícola aproveitado em cooperativas para o beneficiamento da laranja e seus subprodutos, assim como o beneficiamento dos subprodutos da mandioca? E não parece, politicamente falando, antagonismo absurdo Varzedo não ter na sua câmara de vereadores um edil ou mais edis com diploma universitário, tendo vários dos seus filhos com essa prerrogativa?
 Na sua atualidade, o município de Varzedo deve orientar suas necessidades a partir do que lhe é próximo. Considerar-se cidade, mas permanecer com a visão de três décadas atrás enquanto vila pertencente a Santo Antônio de Jesus, não vai levar a maioria dos varzedenses para um horizonte. Varzedo precisa tomar para si a responsabilidade de colocar em prática um trecho do seu hino que diz: “Varzedo de muitas lutas/ E de tantas vitórias”.



* Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa (Portugal, 2009), cuja dissertação defendida tem como tema o processo emancipatório de Varzedo (disponível na internet), e professor da Faculdade Tecnológica Integrada de Valença (FACTIVA). É autor do livro Entre a Serra e a Vargem (2007) e escreve mensalmente uma coluna para o jornal A Folha do Litoral, de Valença.
 



←  Anterior Proxima  → Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário